"O mundo que te ofereço, amiga"
O mundo que te ofereço, amiga,
tem a beleza de um sonho construído.
Aqui os homens são crentes -
não em deuses e outras coisas sem sentido
mas em verdades puras e belas,
tão belas e tão universais,
que eles aceitam
morrer
para que elas vivam.
É esta crença, são estas verdades
que tenho
para te ofertar.
Aqui a ternura não nasce
nas alcovas.
É uma ternura rude, violenta, amarga
nascida na dureza áspera da luta
em caminhadas longas
em dias de espera.
É esta ternura rude e amarga
que tenho
para te ofertar.
Aqui não crescem rosas coloridas.
O peso das botas apagou as flores pelos caminhos.
Aqui cresce milho, mandioca
que o esforço dos homens fez nascer
na previsão da fome.
É esta ausência de rosas,
este esforço, esta fome
que tenho
para te ofertar.
Aqui as crianças não envelhecem,
o seu riso é eterno,
brincam com o sol, com o vento,
com a chuva e os gafanhotos,
com espingardas verdadeiras,
com pedaços de granadas.
É este riso eterno de criança, este sol,
estas espingardas verdadeiras
(com as quais também brinquei)
que eu tenho
para te ofertar.
O mundo em que combato
tem a beleza de um sonho construído.
É este combate, amiga, este sonho
que tenho
para te ofertar.
Jorge Rebelo
Este poema foi escrito durante a guerra de libertação.
Uma entevista controversial. Façam o douwload aqui
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Ilegais na Holanda tratados como criminosos
A Holanda viola cada vez mais os direitos humanos de estrangeiros ilegais e refugiados. É o que conclui a Anistia Internacional com base numa pesquisa feita nos centros de detenção holandeses. Imigrantes sem documentos ficam, às vezes, presos à espera de sua expulsão e denunciam o uso de violência nas prisões. Isso ocorre apesar de não ser crime permanecer ilegalmente na Holanda.
Saskia van Reenen*
08-07-2008
Para ler na integra clique aqui
Saskia van Reenen*
08-07-2008
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quinta-feira, 19 de junho de 2008
Xenofobia e racismo versus Globalização

Clique 2x no lado esquerdo do rato para ampliar a imagem.
É impressionante mas parece que o apartheid voltou a vigorar. Agora de uma forma mais sofisticada, mais globalizada. Depois dos últimos acontecimentos na África do Sul recebi um mail com o recorte de jornal aqui anexado. Será que não se apreende com a história, com os erros cometidos no passado?
Mas gostava de vos contar como se vive na 'minha' aldeia. Deve ser parecido com muitos outros sítios, mas há sempre algumas diferenças.
Aqui na Holanda, exigem a um estrangeiro que venha para cá viver que apreenda a língua e a cultura holandesa. À primeira vista, não há nada de errado, mas o que se passa é que não exigem isso a todos, e os critérios são pouco claros. Por exemplo, um engenheiro é recrutado pela Shell na Índia para vir trabalhar na Holanda. Sabe que a língua oficial dentro da empresa é o inglês. Ao fim de 10 anos, a autarquia envia uma carta a esse engenheiro a dizer que este deve apresentar documentos comprovativos de que sabe falar holandês e que conhece a cultura holandesa.
Cultura holandesa? Como é que se define esta cultura holandesa? Há culturas dominantes e sub-culturas? Há culturas 'melhores' e 'piores' (maiorias e minorias, autóctones e alóctones)? Ou há um certo relativismo cultural? Quais são os usos e costumes? Valores ocidentais como Igualdade, Liberdade e Fraternidade? Individualismo? Tradições? Numa altura em que se fala (correctamente de política - politiamente correcto) de multiculturalismo e diversidade ética, não percebo bem aonde se pretende chegar.
Com um funcionário de uma embaixada já não se passa o mesmo. Estão isentos, não precisam de apresentar documentos nenhuns.
Por outro lado, para os refúgiados económicos e noivas importadas estes cursos são mais sofisticados: tem de prestar provas nas embaixadas da Holanda em Marrocos ou na Turquia.
Os cidadãos da UE não têm de prestar provas: são cidadãos que tem o direito de circular livremente.
Segundo a Human Rights Watch, este teste de integração foi criado para limitar a imigração e não para fomentar a integração. A Human Rights Watch quer que o exame de integração no estrangeiro seja abolido.
O que se passa, é que nos anos 60 vieram para cá viver muitos marroquinos e turcos. Nessa altura, eles vinham para trabalhar na reconstrução do país e nunca ninguém se preocupou com a integração deste grupo de imigrantes. Eram mão-de-obra barata para fábricas e para a construção civil. Hoje vivem em ghettos. A maioria é analfabeta e não sabe nem ler nem escrever. Ajudaram a reconstruir este país e hoje são as ovelhas ranhosas desta sociedade.
O que me parece, é que há uma preocupação excessiva com os estrangeiros, misturada com uma certa arrogância e xenofobismo. Para quem ouve as notícias parece que o problema desta terra são os imigrantes (cerca de 9% da população).
Daí que tenham sido criados partidos políticos como o Partij van Wilders, contra a Islamitizaçâo da sociedade holandesa, e Trots op Nederland 'Orgulhosos da Holanda'. O filosofo Britânico Michael Kenny escreveu um livro The Politics of Identity e comenta que neste tipo de política, falta ideologia.
O que foi feito aos ideais? Vivemos numa aldeia global ou será que as fronteiras económicas impedem-nos de sermos cidadãos do mundo?
Um filme lindo - The Way Home - Jibeuro
Sang-woo (Yu) é levado pela mãe (Dong), da capital, Seul, para a casa da avó (Kim), situada numa aldeia isolada no campo, constituída por meia dúzia de casas, afastadas umas das outras. Song-woo, de 7 anos, aborrece-se com a vida no campo, principalmente depois de acabarem as baterias do jogo electrónico portátil. A septuagenária é muda, pelo que a comunicação com a criança – que vê então pela primeira vez – é redobradamente complicada. Mas ela mostra-se muito paciente face ao comportamento abusivo e desrespeitador do neto, que terá de tentar suportar enquanto a mãe procura emprego na cidade.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Prémio Goldman de Meio Ambiente de 2008 - Moçambique
Soube hoje deste prémio. É um tipo de música de intervenção e com repercussões positivas. Se souberem doutros exemplos de Moçambique que valha a pena conhecer deixem aqui o vosso comentário.Capacitação através da música
Usando a música para difundir a mensagem de saneamento ecológico nas partes mais remotas de Moçambique, Feliciano dos Santos habilita os habitantes das aldeias a participar do desenvolvimento sustentável e deixar a pobreza para trás. Na província do Niassa, muitas aldeias não contam nem mesmo com uma infraestrutura de saneamento básico. Sem acesso confiável a sistemas de fornecimento de água limpa e tratamento de dejectos, a população está altamente sujeita a enfermidades.
Santos, que cresceu na região, é hoje o líder de um programa inovador que está a trazer esperança renovada ao Niassa. Com a sua banda, Massukos, reconhecida internacionalmente, Santos utiliza a música para divulgar a importância da água e do saneamento em Moçambique. Actualmente, o seu programa serve de modelo para outros programas de desenvolvimento sustentável em todo o mundo.
Massukos, a banda de Santos, incorpora a mensagem do saneamento à música, realizando apresentações em aldeias em todo o Niassa e, ocasionalmente, em outras partes de Moçambique e também no exterior. Desde que Santos iniciou o seu programa comunitário através da música, pessoas em todo o Niassa e Moçambique começaram a prestar mais atenção aos problemas de saneamento rural do país. Ao incorporar as ricas tradições de espectáculo do Moçambique, Santos e ESTAMOS (associação comunitária) conseguem estabelecer uma ligação com os habitantes das aldeias de maneira culturalmente apropriada, através da música e do teatro. Quando Santos e a sua banda chegam a uma aldeia no Niassa, toda a população local amiúde aparece para ouvir a sua música e a sua mensagem. A música, porém, não é a única razão do sucesso da ESTAMOS. Em Julho de 2007, Massukos foi à Inglaterra para o lançamento do álbum “Bumping” e apresentou-se no World of Music, Arts and Dance (WOMAD), o festival internacional de renome de música, arte e dança.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Poesia - Não te amo - Almeida Garrett
Ontem à noite, falei com a Mª Fenanda àceca do filme 'Lady Chatterley'. E a propósito do filme, ela referiu-se a este poema. Já que o amor é, antes de mais, algo que se sente, como é que a gente o começa a sentir ? Será que tem de haver dialogo ou o amor não precisa de palavras ? O amor não é o que queremos sentir, mas o que sentimos sem querer ? Quem nos guia é o coração ou é a cabeça ? Gostava de saber o que sentem ou pensam. Não o amor na teoria mas na prática, pois varia muito segundo a concepção individual de cada um.
Não te amo
Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
Almeida Garrett (04.02. 1799 - 09.12. 1854)
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Amor & Fadas do lar
Depois de ter escrito sobre o ‘Elogio ao amor’ e ‘Sexo versus pornografia’ surgiram comentários: amor, eterno ou não?; porque é que já não se acredita que o amor possa durar a vida inteira?
Pensei: Porque é que aparentemente o amor durava mais antigamente?
No amor, o mistério desaparece à medida que a intimidade progride. Para durar, deve ser cuidado e cultivado.
Pensando em termos de antes e depois, noto o seguinte:
As pessoas casam-se menos, divorciam-se mais. O próprio sistema jurídico, nas sociedades ocidentais, facilita o divórcio. É mas fácil descartar (aliás, como tudo o resto numa sociedade de consumo). Os factores sociológicos e económicos que contribuem para este fenómeno, são a secularização da sociedade (as pessoas já não estão juntas até que a morte os separe) e a independência económica da mulher.
Históricamente, quando as pessoas começaram a fixar-se, os homens iam à caça enquanto as mulheres cultivavam a terra. Com a industrialização, os conflitos entre os homens e mulheres aumentaram. E porquê?
Porque as mulheres apreenderam a pensar mais nelas (já não são domésticas e muito menos fadas do lar!). Os homens (salvo raras excepções) não deixaram de pensar só neles.
Nas sociedades onde os valores individuais são mais fortes que os valores colectivos, ‘o outro’ perde um pouco o significado. Vivemos centrados em nós (eu, comigo e para mim), e sabemos que não podemos apoiarmo-nos nos outros. E aí começa o ciclo vicioso e a desarmonia. Vivemos sós.
No entanto, penso que as mulheres têm vivências mais colectivistas.
Enquanto, os homens deixam as mulheres sozinhas com os filhos e vão para a tasca, para o campo de futebol, etc., as mulheres olham para as necessidades dos filhos, marido, família e comunidade. As mulheres são o pilar das sociedades, trabalham como escravas e são mal pagas. Dum modo geral, são elas que conciliam o trabalho de casa com o emprego. E para dificultar a vida, as mulheres estão mal representadas a nível dos órgãos decisivos.
Nota: Concordo com o Prémio Nobel da Economia de 2006, Muhammad Yunus, que dizia numa entrevista conceder de preferência um microcrédito a uma mulher do que a um homem, porque as mulheres pensavam mais nos outros do que nelas próprias. Não gastam dinheiro com elas mas com a educação dos filhos etc.
Resolvi ilustrar esta mensagem com uma peça da escultora Joana Vasconcelos. Ela tem uma noção de expressão artística muito feminina: aproveitar coisas vulgares para fazer coisas extraordinárias! Esta escultura chama-se Cinderela tem 5 metros de altura. É feita com tampas e panelas. Será que uma Cinderela resolveu polir estas panelas todas, ou é apenas reflexo da luz? Esta foto foi tirada no verão, nos jardins do Palácio de Belém. Os holandeses poderiam chamar keukenprinces, isto é, princesa da cozinha.
Pensei: Porque é que aparentemente o amor durava mais antigamente?No amor, o mistério desaparece à medida que a intimidade progride. Para durar, deve ser cuidado e cultivado.
Pensando em termos de antes e depois, noto o seguinte:
As pessoas casam-se menos, divorciam-se mais. O próprio sistema jurídico, nas sociedades ocidentais, facilita o divórcio. É mas fácil descartar (aliás, como tudo o resto numa sociedade de consumo). Os factores sociológicos e económicos que contribuem para este fenómeno, são a secularização da sociedade (as pessoas já não estão juntas até que a morte os separe) e a independência económica da mulher.
Históricamente, quando as pessoas começaram a fixar-se, os homens iam à caça enquanto as mulheres cultivavam a terra. Com a industrialização, os conflitos entre os homens e mulheres aumentaram. E porquê?
Porque as mulheres apreenderam a pensar mais nelas (já não são domésticas e muito menos fadas do lar!). Os homens (salvo raras excepções) não deixaram de pensar só neles.
Nas sociedades onde os valores individuais são mais fortes que os valores colectivos, ‘o outro’ perde um pouco o significado. Vivemos centrados em nós (eu, comigo e para mim), e sabemos que não podemos apoiarmo-nos nos outros. E aí começa o ciclo vicioso e a desarmonia. Vivemos sós.
No entanto, penso que as mulheres têm vivências mais colectivistas.
Enquanto, os homens deixam as mulheres sozinhas com os filhos e vão para a tasca, para o campo de futebol, etc., as mulheres olham para as necessidades dos filhos, marido, família e comunidade. As mulheres são o pilar das sociedades, trabalham como escravas e são mal pagas. Dum modo geral, são elas que conciliam o trabalho de casa com o emprego. E para dificultar a vida, as mulheres estão mal representadas a nível dos órgãos decisivos.
Nota: Concordo com o Prémio Nobel da Economia de 2006, Muhammad Yunus, que dizia numa entrevista conceder de preferência um microcrédito a uma mulher do que a um homem, porque as mulheres pensavam mais nos outros do que nelas próprias. Não gastam dinheiro com elas mas com a educação dos filhos etc.
Resolvi ilustrar esta mensagem com uma peça da escultora Joana Vasconcelos. Ela tem uma noção de expressão artística muito feminina: aproveitar coisas vulgares para fazer coisas extraordinárias! Esta escultura chama-se Cinderela tem 5 metros de altura. É feita com tampas e panelas. Será que uma Cinderela resolveu polir estas panelas todas, ou é apenas reflexo da luz? Esta foto foi tirada no verão, nos jardins do Palácio de Belém. Os holandeses poderiam chamar keukenprinces, isto é, princesa da cozinha.
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